Salta il menù

Stampa | Salva | Invia | Translate

Maria Assunção Almeida Nogueira, Ramiro Délio Borges Meneses

O desvalido no caminho (Lc 10, 25-37): pela axiologia das competências

1. Introdução ^

O conceito competência e o seu desenvolvimento «tem vindo a ganhar relevo na actualidade» (Jardim & Pereira, 2006, 16). O homem na procura da sua realização pessoal e profissional envolver-se activamente no seu processo de construção pessoal. Mas, para optimizar e desenvolver as competências, quer pessoais quer interpessoais, tem de se encontrar em boas condições físicas e psicológicas (Jardim & Pereira, 2006). A competência é um factor importante na admissão de pessoal para uma empresa ou na sua promoção. Se até há pouco tempo, a posse de habilitações acadêmicas e destreza manual determinavam uma parte da probabilidade de uma pessoa se tornar um bom profissional, hoje, existem outros predicados pessoais que ditam as novas regras e marcam um profissional de excepção (Goleman, 2005; Ceitil, 2007). Segundo a parábola do Desvalido no Caminho (Lc 10, 25-37), o Bom Samaritano não era um profissional, era antes um «estrangeiro». Contudo desenvolveu competências perante as necessidades de um Desvalido no Caminho (semi-morto). A grande competência de alteridade define-se como «competência esplancnofânica». Poderemos, pois, dizer que o Sacerdote e o Levita, da parábola, desenvolveram competências profissionais. Criaram uma competência de identidade, denominada «competência litúrgica», por causa do Templo de Jerusalém. As competências, segundo a parábola do Bom Samaritano (Lc. 10, 25-37) , geram uma nova axiologia, de carácter aretológico, proveniente da antropologia veterotestamentária. Procuramos, neste estudo, um relacionamento antropológico entre a parábola do Bom Samaritano (Lc. 10, 25-37) e as teorias das competências, em ordem a elaborar uma axiologia das competências.

2. O termo competências ^

Assim, no meio empresarial, a par dos certificados formativos do indivíduo começou-se não só a valorizar as qualidades singulares da pessoa, a sua história pessoal e profissional mas também a verificar de que modo o trabalhador responde a situações imprevistas de trabalho. Este conceito de competência pressupõe que o indivíduo saiba gerir uma situação complexa de trabalho (Le Boterf, 1997). Para Rey et al. (2005) esta concepção de competência possui várias características:

O termo competências é frequentemente usado para designar as aptidões, os conhecimentos, as habilidades, os saberes e a idoneidade de alguém. O Samaritano, quando conduziu o «semi-morto» ao estalajadeiro (Lc 10, 35), revelou uma grande habilidade, como se fosse a aplicação de cuidados primários. Segundo Harb (2001), nas organizações, o termo competência pode adquirir vários sentidos, alguns característicos da pessoa, como conhecimentos, habilidades e atitudes (variáveis input) e outros característicos da tarefa, resultado (variáveis output). A competência não se restringe apenas aos conhecimentos adquiridos pelo indivíduo, mas refere-se à capacidade da pessoa assumir a iniciativa, ir mais além das tarefas estabelecidas, ser hábil em entender e dominar novas situações de trabalho, ser responsável e ser reconhecido pelas atitudes que toma (Goleman, 2005). Harb (2001) refere-se à competência como o resultado da aplicação de qualificações no trabalho e não apenas como detentor dessa qualificação.

Para Pires (1994), as competências podem ser divididas em quatro grupos fundamentais: competências genéricas, soft skills, competências chave e as competências de terceira dimensão.

No seu livro, Mário Ceitil (2007) enumera quatro perspectivas relevantes quanto à abordagem das competências:

Segundo Dias, «a competência é uma construção que resulta da combinação pertinente entre vários recursos» (Dias, 2006, 33). Para os diversos autores já referidos, parece consensual que as competências sejam «predicados» atribuídos a alguém por ser detentor de vários saberes, capaz de fazer julgamentos ou decidir sobre determinadas matérias. O Sacerdote e o Levita tinham saberes. Aqueles que vinham ora da Torah, ora das Berachot. Perrenoud (1999) defende que não existe competência sem saberes e que cada competência mobiliza vários saberes. A competência pode traduzir-se numa capacidade de integrar os diversos saberes, saber mobilizar, saber integrar e saber transferir, com a finalidade de realizar actividades num contexto profissional (Le Boterf, 1994). O grande recurso do Samaritano foi uma competencia de alteridade, em detrimento das competências de identidade, representadas no Sacerdote, no Levita e nos salteadores.

3. Saber-fazer ^

Para Le Boterf (1997), a competência não se resume a um saber, nem a saber-fazer, devendo também ser incluído no conceito um saber-mobilizar, integrar e transferir conhecimentos não só a partir da formação mas também através de todos os conhecimentos provenientes de uma experiência ao longo da vida e que se manifestam num contexto específico.

3.1. Saber mobilizar

O indivíduo pode ter capacidade e conhecimento, mas isto não significa que seja competente. Ser competente é saber mobilizar vários saberes (Le Boterf, 1994; Le Boterf, 1997; Perrenoud, 1999; Harb, 2001; Le Boterf, 2003; Perrenoud, 2002b). Frequentemente, verificamos que existem pessoas que possuem conhecimentos e têm capacidade para os aplicar mas, no momento certo, não sabem como mobilizar esses conhecimentos de forma pertinente. O Sacerdote e o Levita estavam preocupados consigo e não com o Desvalido no Caminho.

Nas suas obras, Le Boterf refere com frequência que a competência só se manifesta na acção (Boterf, 1994; Boterf, 1997; Boterf, 2003). Neste sentido Perrenoud (2002) acrescenta que a competência tem que ser preexistente a ela mesma e exige simultaneamente recursos e meios de mobilização:

As competências mobilizam saberes, mas falar apenas nos conhecimentos quando se evoca as competências é redutor. A competência manifesta-se na capacidade de um indivíduo em utilizar os recursos que possui, isto quer dizer empregar os conhecimentos, a experiência passada e agir de forma eficaz e eficiente em situações complexas (Le Boterf, 1994; Perrenoud, 1998; Perrenoud, 2002 a).

O Sacerdote e o Levita revelaram uma competência litúrgica em função do Templo de Jerusalem. Então, podemos dizer que competência é a capacidade de mobilizar e articular os vários saberes do indivíduo, mas não só os saberes teóricos também os saberes práticos, as atitudes, os valores requeridos pelas situações de trabalho, assumindo a responsabilidade do que se faz. A competência pode estar condicionada pelo contexto sócio-económico e político: expressando relações sociais, resultado de negociações entre os interesses que dividem os diversos actores envolvidos no processo. A prática dos interesses nas competência encontra-se simbolizado nas atitudes dos salteadores, no Sacerdote e no Levita. Neste sentido a competência não se restringe a uma perspectiva individualista; é construída ao longo da vida profissional do trabalhador, o qual partilha experiências práticas colectivas, tal como aconteceu com o Samaritano que pagou, ao estalajadeiro, cerca de dois denários.

3.2. Saber integrar

Segundo Phaneuf, a competência é o «conjunto integrado de habilidades cognitivas, de habilidades psicomotoras e de comportamentos sócio afectivos» (2005, 2). Um conjunto de saberes indissociáveis da formação inicial de base e da experiência, adquirida ao longo do tempo de forma empírica, não sistematizada, que se manifesta em situações concretas de trabalho. Na verdade, o Samaritano integrou a competência comotiva, visto que resultou de uma motiva esplancnofânica. O Sacerdote e o Levita integraram os os comportamentos de identidade, tal como lhe foram ensinados a partir da Torah. Todavia, o Samaritano integrou em si a conduta esplancnofânica, que veio do Desvalido no Caminho (Jesus Cristo), como um «semi-morto».

3.3. Saber transferir

Dizemos que um indivíduo é competente quando é capaz de aplicar os seus conhecimentos e técnicas em contextos desconhecidos ou em situações novas, não se limitando à execução de uma tarefa única e repetitiva. Ser competente vai muito para além da boa execução; «pressupõe a existência de capacidades de assimilação e de integração, assim como fazer evoluir a situação de trabalho na qual se opera» (Le Boterf, 1994, 34). O Samaritano soube transferir os seus conhecimentos, em ajuda, ao Desvalido no Caminho. A situação foi nova e criativa. Foi uma criatividade de alteridade. Surgiu uma integração esplancnofânica. Esta integração é uma transferência de fora para dentro. As atitudes do Sacerdote e do Levita foram de dentro para fora. Foi uma transferência de identidade, enquanto que a transferência esplancnofânica, operada no Samaritano, denomina-se como «transferência de alteridade».

4. A competência emocional ^

Ao possuir competências pessoais e sociais, o indivíduo tem em sua posse a competência emocional.1 «A competência emocional é uma capacidade apreendida, que se baseia na inteligência emocional, e que resulta num desempenho extraordinário no trabalho» (Goleman, 2005, 33). Centra-se sobretudo nas capacidades e qualidades pessoais, em que a capacidade de tomar iniciativa, a empatia, o respeito a adaptação e a capacidade de persuasão, são alguns dos aspectos da competência emocional. (Goleman, 2005). O Samaritano foi naturalmente impulsionado para uma nova capacidade de persuasão, marcada pelo sentido esplasncnofanico do agir e do fazer. Tudo indica que a inteligência emocional difere entre os géneros. Num estudo efectuado, Goleman (2005) chegou à conclusão que as mulheres, em média, têm em relação aos homens uma maior percepção das suas emoções e das dos outros; também conseguem ser mais empáticas e mais competentes do que os homens nas relações interpessoais; no entanto, os homens demonstram ser mais auto-confiantes, mais optimistas, adaptando-se com maior facilidade aos diferentes contextos e suportando níveis de stresse mais elevados.

Geneticamente, esta capacidade não nasce connosco, nem se desenvolve nos primeiros anos de vida, ao contrário do QI (quociente intelectual), que pouco muda depois da adolescência; ela desenvolve-se ao longo da vida. Nesta matéria, esta competência pode situar-se num pólo crescente, pois à medida que se desenvolve é interiorizada pelo indivíduo que, tendo consciência dela e da sua importância para a relação que estabelece com o outro, aprende-a e desenvolve-a ainda mais. Todas «as capacidades da inteligência emocional estão em sinergia com as capacidades cognitivas; os profissionais de excepção possuem ambas» (Goleman, 2005, . 31). O Samaritano (Lc. 10, 25-37) agiu com uma «inteligência comotiva», onde o grande sentimento é esplancnofânico e é um sentimento que vem de fora para dentro e de baixo para cima. Foi um sentimento de misericórdia e não um sentimento de compaixão.

Assim o Samaritano tem nas «suas mãos», e deverá ser objectivo da sua intervenção, a responsabilidade de:

Podemos dizer que, nas gerações mais jovens, enquanto o QI aumenta, a inteligência emocional parece estar em declínio. Isto torna-se preocupante porque a solidariedade entre gerações está também a diminuir requerendo, por parte dos adultos, reflexões profundas no sentido de se poder controlar e contornar este fenômeno. (Goleman, 2005). Há relações entre as cinco dimensões da inteligência emocional e as vinte e cinco competências emocionais. Goleman (2005) refere que nesta escala ninguém é perfeito; as pessoas têm inevitavelmente um perfil de pontos fortes e pontos fracos. No entanto, pode-se cultivar os aspectos bons no sentido de aumentar o seu potencial. Este autor divide as competências emocionais em dois grandes grupos: as competências pessoais que dizem respeito à forma como cada um se gere; e as competências sociais, que dizem respeito à forma como cada um se relaciona e lida com os outros. O Sacerdote e o Levita marcaram pontos fracos, ao passarem para o outro lado do caminho, enquanto os pontos fortes estiveram do lado do Samaritano, pelo facto de se demarcar através da «inteligência comotiva». A Tabela que se segue (adaptada de Goleman, 2005, 35-36) é própria da inteligência emotiva, caracterizando-se por meio de Competências Emocionais:

Competência Pessoal
AutoconsciênciaAutoconsciência emocionalReconhecer as próprias emoções e os seus efeitos
Autoavaliação precisaConhecer as próprias forças e limitações
AutoconfiançaConfiança nas capacidades e no valor próprios
AutorregulaçãoAutodomínioGerir emoções e impulsos negativos
Inspirar confiançaConservar padrões de honestidade e integridade
Ser conscienciosoAssumir a responsabilidade pelo desempenho pessoal
AdaptabilidadeFlexibilidade em lidar com a mudança
InovaçãoSentir-se à vontade e aberto a novas idéias, abordagens e informação
MotivaçãoVontade de triunfarLutar por se aperfeiçoar ou atingir um padrão de excelência
EmpenhoAlinhar com objectivos de grupo ou organização
IniciativaEstar preparado para aproveitar oportunidades
OptimismoPersistência em atingir os objectivos apesar dos obstáculos e revezes
Competência Social
EmpatiaCompreender os outrosTer percepção dos sentimentos e das perspectivas dos outros e manifestar um interesse activo nas suas preocupações
Desenvolver os outrosTer a percepção das necessidades de desenvolvimento dos outros e fortalecer as suas capacidades
Orientação para o serviçoAntecipar, reconhecer e ir ao encontro das necessidades dos clientes
Potenciar a diversidadeCultivar oportunidades com diferentes tipos de pessoas
Consciência políticaLer as correntes emocionais e as relações de poder de um grupo
Competências SociaisInfluênciaExercer tácticas eficazes de persuasão
ComunicaçãoOuvir com abertura e enviar mensagens convincentes
Gestão de ConflitosNegociar e resolver desacordos
LiderançaInspirar e guiar grupos de pessoas
Catalisador da mudançaIniciar e gerir a mudança
Criar laçosAlimentar relações instrumentais
Colaboração e cooperaçãoTrabalhar com outros para objectivos comuns
Capacidades de equipeCriar sinergias de grupo na prossecução de objectivos colectivos

O Samaritano sentiu, no seu interior, vindo da exterioridade, a «inteligência comotiva», que é mais do que uma «inteligência emotiva». Será, sim, uma«inteligência esplancnofânica».

Para qualquer profissão é fundamental que o indivíduo tenha consciência da importância das competências pessoais e as desenvolva. É importante que tenha consciência de si, daquilo que é (ou não) capaz, e desenvolver-se no sentido de fazer surgir em si as competências necessárias para desenvolver determinada actividade. Para quem lida com seres humanos, para além das competências pessoais, necessita desenvolver competências sociais, ou seja, necessita desenvolver todas as competências relacionadas com o saber-ser, saber-estar: é o domínio das atitudes.

O respeito, para Lazure (1994), é acreditar que a pessoa a quem se prestam cuidados, é única e portanto só ela possui um potencial específico para aprender a viver de forma mais satisfatória. Segundo a sua opinião, respeitar não significa querer que o outro se assemelhe a si, pelo contrário é aceitar o outro pela sua diferença, demonstrando-lhe consideração, respeitando os seus sentimentos, entendendo-os. O respeito é um acto gratuito, atitude adquirida de imediato, em que se aceita o outro incondicionalmente com os seus valores apesar de poderem ser diferentes dos nossos (Berger, 1995).

Já a empatia compreende a capacidade de um indivíduo entrar no mundo do outro e participar nas suas vivências/experiências, através de uma comunicação efectiva verbal e não-verbal (Lazure, 1994). A empatia não é senão uma habilidade no domínio do saber-ser, saber-estar, em que existem capacidades de entender os sentimentos do outro; é tentar colocar-se no seu lugar. Autores como Kozier e Erb referidos por Queirós, (1999) advogam que existem várias etapas no processo de empatia, sendo elas.

Para Egan (1987), existem dois tipos de empatia: a empatia de base e a empatia avançada. A primeira diz respeito ao saber comunicar com o outro e ao saber fazer escuta activa; a empatia avançada visa tentar ajudar o outro a desenvolver ele mesmo uma opinião a partir de dados que lhe são fornecidos pela sua auto-exploração. Estes são indicadores fundamentais para entender o outro profundamente. A empatia é tentar compreender o que o outro sente, para melhor o poder cuidar, sem no entanto haver envolvimento do cuidador.

A escuta da Palavra (Lc. 10, 38-42) é outro factor que facilita a relação de ajuda. Para Berger (1995), escutar é mais do que simplesmente ouvir, significando estar atento ao outro para se conseguir aceder à sua vivência. Através da escuta, o indivíduo compreende as suas próprias dificuldades e encontra em si os recursos necessários para as superar (Berger, 1995). Ao escutar as suas próprias emoções dá-se espaço para a pessoa crescer. O Samaritano cresceu espiritualmente na ajuda ao seu próximo. Foi um «crescimento plesiológico».

Em suma, seja a competência fácil ou difícil, comum ou especializada, concreta ou abstracta, «permite fazer face, regularmente e de forma adequada, a uma família de tarefas e de situações» (Perrenoud, 2002b, 131). Para tal é necessário fazer apelo aos conhecimentos, às informações, à técnica, aos procedimentos, aos métodos e ainda a outras ferramentas mais específicas. . É competente aquele que tem conhecimentos, habilidade e destreza manual, capacidades exigidas pela profissão, o saber solucionar tarefas em tempo útil com autonomia segurança e flexibilidade, bem como capacidade em relacionar-se e saber comunicar (Dias, 2005). O Samaritano, até mesmo no silêncio, soube comunicar.

5. A competência e o conhecimento ^

A competência está ab initio relacionada com o conhecimento (Custódio, 2007). É difícil sabermos exactamente como é adquirida uma competência; ela é singular e está intimamente ligada com a história de vida de um indivíduo, com a sua personalidade, «nunca se vê uma competência, apenas se observam os seus efeitos» (Rey, Carette, DeFrance & Kahn, 2005, 22). O Samaritano não teve conhecimento. Actuou de forma inespecífica. Todavia, o Sacerdote e o Levita tinham o conhecimento jurídico da Torah, mas não a «vivência esplancnofânica».

Para muitos, a noção de competência remete-nos para as práticas do quotidiano, que mobilizam saberes do senso comum, saberes adquiridos essencialmente com a experiência. Ao falarmos de saberes adquiridos com a experiência, estamos a falar de uma habilidade para executar algo.

Perrenoud (1999) alerta-nos para a conveniência de não confundirmos a noção de habilidade com competência, nem competência com um saber. Na experiência quotidiana, habituamo-nos a falar de habilidades, ao termos que fazer repetidamente uma tarefa, para designar uma ou várias habilidades concretas, ao passo que o conceito de competência remete-nos a tarefas mais elaboradas em que é necessária a mobilização de vários saberes.

Competência é um conceito mais amplo do que habilidade e do que um saber, embora também se possa referir a um domínio prático de certo tipo de tarefas em determinados contextos. Podemos considerar a existência de vários saberes:

Autores como Pires (1994) e Dias (2005) incorporam na competência vários saberes que devem articular-se: o saber-saber ou conhecimento, o saber-fazer e o saber-estar. O primeiro autor, salienta que «considerando o modelo de competência profissional a partir de três dimensões, o saber, o saber-fazer e o saber-ser ou estar, pressupõe-se uma concepção diferente da tradicional abordagem pela qualificação» (Pires, 1994; 7). Já Dias (2005) aponta a mesma tipologia de saberes, onde inclui as mesmas dimensões, referindo no entanto que estas devem ser tidas em consideração ao longo do processo de formação do indivíduo.

«Numa aproximação conceptual, consideram-na um conjunto de saberes indissociavelmente ligados à formação inicial de base e à experiência proveniente da acção adquirida ao longo do tempo, de forma empírica, não sistematizada e que se manifestam em situações concretas de trabalho, sendo por isso, difícil de avaliar» (Dias, 2006, 33). Implicam saber mobilizar, integrar e transferir de conhecimentos que deverão conjugar-se em hegemonia com as capacidades técnicas e habilidades do saber-fazer. O Sacerdote actuaram de forma empírica e mecânica. Não procederam como o Samaritano. Estes personagens referiram a identidade da identidade.

Influenciar as práticas por intermédio dos saberes é informar e formar de todas as maneiras possíveis, desde a forma mais clássica de transmissão de informação, até às acções de formação, pela análise da prática profissional. As situações educativas constroem e reconstroem o saber, sem o dar a entender; passam pelo conselho, pela supervisão, pelo acompanhamento de projectos e por todos os processos de auto-avaliação, de reflexão, de confrontação que contribuem para fazer evoluir as representações e os saberes (Perrenoud, 2002a). O Samaritano não teve tempo para reflectir. Actuou imediatamente devido à «vocação esplancnofânica». O Sacerdote e o Levita tiveram tempo, o tempo de identidade, para poderem reflectir sobre a sua actuação, relativamente ao Desvalido no Caminho.

Benner (2005) afirmou que a competência não é um fenômeno inato nem consequência de um stock de informações, mas um processo interminável e inacabado, que se vai construindo com base na experiência, com a prática, a reflexão crítica e aquisição de conhecimentos. Para esta autora existem cinco níveis sucessivos de competência. iniciado, iniciado avançado, competente, proficiente e perito (Benner, 2005). Estes estádios são consequência de mudanças operadas no indivíduo em três situações gerais que se aplicam quando da aquisição de uma competência. O primeiro, o iniciado, é a passagem de uma confiança em princípios abstractos à execução; o segundo, o iniciado avançado, a passagem do modo como se vê a situação, passa-se de um conjunto de elementos fragmentados a um conjunto holístico, em que algumas partes são mais importantes do que outras, há um sentido do que é prioridade; o terceiro, o competente, é a passagem de observador desligado a executante envolvido; o quarto, proficiente, está envolvido e empenhado na situação; por último, o perito, que actua resolve as situações problemas e antecipa-se a elas intuitivamente (Benner, 2005). Contudo, o Samaritano não actuou intuitivamente. Actuou de forma esplancnofânica.

Diante de acções requeridas, considera-se que existem várias maneiras de ser competente e de poder agir de várias formas e estas serem pertinentes. A sua acção não se reduz apenas a um comportamento, mas a vários comportamentos. São muitos os elementos para avaliar a competência do sujeito, porque reconhece-se faculdades no indivíduo para mobilizar e conjugar recursos e acções. Neste modelo o saber, o saber-fazer, para além de outros saberes, são apenas recursos que o indivíduo possui e que pode mobilizar a fim de construir a sua competência (Le Boterf, 2003). Asa competências criam-se e recriam-se em novos modos de ser e de agir, tal como sucedeu com os personagens da parábola do Desvalido no Caminho (Lc. 10, 25-37).

Dizemos que a informação é uma abstracção informal que está na mente de alguém, representando algo que tenha significado para essa pessoa. O conhecimento é o fundamento da informação. «A informação pode ser propriedade interior de uma pessoa ou ser recebida por ela. No primeiro caso, está em sua esfera mental, podendo originar-se eventualmente em uma percepção interior, como sentir dor» (Setzer, 2001, 1). A informação pode ser descrita enquanto que o conhecimento sendo também uma abstracção interior, de algo que foi experienciado, vivenciado por alguém não pode ser descrito; o que é descrito pela pessoa é a informação. O Samaritano actuou por informação, dado que não o necessitava de o fazer. Actou por uma «intuição esplancnofânica». O conhecimento está no âmbito permanente subjectivo do homem. O homem, consciente do seu conhecimento, é capaz de descrevê-lo, parcial ou conceitualmente, em termos de informação (Setzer, 2001). O sacerdote e o Levita atuaram através da «informação litúrgica».

O homem desde sempre ensinou e aprendeu apesar de, na maior parte das vezes, não ter consciência desse facto. Este processo está ligado a todo o percurso da humanidade e graças a ele conseguimos dar respostas adaptadas em diferentes situações e em diferentes contextos. Podemos, assim, definir aprendizagem como a «aquisição de conhecimento, retenção na memória, ou seja, uma mudança de atitude» (Simões, 1999, 42). Estas modificações têm um carácter duradouro, porque os efeitos da aprendizagem permanecem ao longo do tempo de forma estável. O Sacerdote e o Levita tinham conhecimentos da Torah, para poderem actuar em função de um «semi-morto». Não podiam tocar num cadáver para não se contaminarem.

Dependendo da teoria que esteja subjacente, há várias explicações para o processo de aprendizagem, mas também existem diferentes formas de abordar o sujeito, ou seja, de ensinar (Dias, 2004). Este autor admite um processo de aprendizagem feito através das experiências de forma informal; para tal é necessário que o aprendiz contacte directamente com as situações e tenha a possibilidade de poder agir. A experiência directa com a situação permite aquisição de conhecimentos e mudanças de atitudes, sentimentos e habilidades. Todo o agir do Samaritano foi informal. Não se limita à aquisição de competência no domínio do saber ou do saber-fazer, envolvendo o sujeito em todas as suas dimensões, cognitiva, afectiva, comportamental, provoca mudanças que se repercutem a nível de conhecimentos, atitudes, habilidades, e auto-conceito. Ela supõe uma intensa actividade intelectual no sentido de confrontar a experiência de a integrar e de lhe dar um sentido. Este tipo de aprendizagem faz-se percorrendo quatro etapas envolvendo quatro modos adaptativos de aprendizagem: experiência concreta, observação reflexiva, conceptualização abstracta e experimentação activa. (Abreu, 2001). A experiência activa esteve presente na vida do Samaritano, devido à esplancnofania.

Segundo Bandura (1989) a aprendizagem faz-se por observação e imitação daqueles com quem convivemos, designando-a por aprendizagem social. Bandura (1989) apelida de modelagem o processo de aprendizagem social feito com base na observação e imitações sociais, «a imitação consiste num sujeito utilizar a experiência do outro, observar o comportamento e as consequências que daí resultam, sugerindo que a aprendizagem pode ocorrer mesmo quando as respostas imitativas não são reforçadas» (Dias, 2004, 29).

O homem é um ser complexo, o seu comportamento não pode ser explicado apenas pelas vias lineares como os behavioristas pretendem com os condicionamentos clássico e operante. Vive em interacção constante, quer com o meio quer com os seus semelhantes sociais, por isso faz «observações das outras pessoas, imitando o que os outros fazem, escolhendo modelos sociais como guias da sua própria acção» (Rafael, 2005, 133). Estudos têm demonstrado que determinadas características nas pessoas fazem com que sejam modelos aos olhos dos outros e portanto com tendência para que sejam imitadas. Os modelos impõem-se aos outros pelo sucesso, pelo poder, pela classe social ou pela sua competência bem como pela sua personalidade. Tal como se verifica, pela parábolas do Bom Samaritano, as competências são da personalidade e para a personalidade dos sujeitos implicados: Sacerdote, Levita, Samaritano, salteadores e nomikos (Doutor da Lei).

6. O desenvolvimento intelectual ^

O desenvolvimento intelectual, o desenvolvimento social e a motivação são determinantes na aprendizagem do indivíduo. Para a Psicologia, a inteligência é o agregado de capacidades cognitivas, que ajudam o indivíduo a adaptar-se eficazmente ao meio. O desenvolvimento intelectual e a aprendizagem são quase simultâneos, porque ao fazer-se uma aprendizagem, há desenvolvimento intelectual; adquirem-se novas estruturas cognitivas que permitem à pessoa fazer aprendizagens cada vez mais complexas (Tavares & Alarcão, 1992). O Samaritano actuou não por conhecimento teórica. A sua actuação foi por conhecimento poiético e prático.

A motivação depende das necessidades sentidas, dos objectivos e interesses próprios. Segundo o Samaritano, a motivação será esplancnofânica. Foi uma motivação de fora para dentro. Uma motivação agápica.

O conceito de motivação é difícil de definir; contudo parece ser a energia que determina a nossa acção, ou seja, é a força que impulsiona a pessoa a fazer algo. «A motivação é o motor da vida, dá início e orienta a dinâmica comportamental e a soma das forças que agem sobre um indivíduo ou sobre si mesmo, para encaminhar numa direcção determinada e conduzi-lo para uma finalidade» (Montserrat, 2004, 14). A motivação é um fenômeno multidimensional que tem que ver com o indivíduo, com o processo e com os resultados. É o querer-fazer, o poder-fazer e o saber-fazer.

Sabe-se que a aprendizagem é facilitada quando o indivíduo se empenha no processo, procurando activamente atingir os objectivos a que se propôs. Quando isto acontece, diz-se que a motivação é intrínseca. Pelo contrário os alunos desmotivados, que revelam pensamentos negativos e comportam-se de forma negativa, são passivos, evitam desafios e não se esforçam (Lemos, 2005). O Sacerdote e o Levita sofreram a aprendizagem da Torah. O Samaritano agiu de fora para dentro motivado pela «comoção das vísceras».

Existem várias teorias para explicar a motivação, mas Ferreira (2006) adverte para o facto de não existir nenhuma universalmente aceite sobre o comportamento humano. De uma forma geral e de acordo com a classificação de Ferreira (2006) existem dois grupos de teorias da motivação: as de conteúdo e as teorias de processo. As primeiras dizem «respeito à identidade específica daquilo que existe no interior do indivíduo no seu comportamento, ou seja, aquilo que motiva as pessoas» (Ferreira, 2006, 111).

Todas as teorias da motivação tentam explicar o que leva o indivíduo a movimentar-se, a fazer escolhas e a ser persistente. De seguida, apresentamos de forma sumária a teoria das Necessidades (teoria de conteúdo) e duas teorias do processo: teoria do reforço e teoria das expectativas. O Sacerdote e o Levita tinham necessidades a cumprir e a obter, desde as materiais até às necessidades impostas pelo Templo de Jerusalém.

7. Conclusão ^

A palavra «necessidades» conserva um sentido indefinido e complexo. Maslow considerou que as pessoas são motivadas pelo desejo de satisfazer um determinado grupo específico de necessidades. Assente no pressuposto que estas necessidades se agrupam segundo prioridades, ele criou uma pirâmide para as hierarquizar, colocando na base da pirâmide as necessidades fisiológicas, seguindo-se as necessidades de segurança, sociais, de estima e, no topo, da pirâmide as necessidades de autorrealização. O Sacerdote e o Levita tinham muitas necessidades. Naturalmente, a mais importante seria afirmarem-se e afirmarem os conteúdos da Lei de Moisés e o ensinamentos dos Profetas de Israel. Os Samaritanos só admitiam o Pentatêuco.

As necessidades, segundo Maslow, encontram-se representadas na seguinte pirâmide:

As pessoas atingem um nível superior de necessidades se as de nível inferior estiverem satisfeitas. A justificação desta necessidade encontram-se expressas na parábola do Bom Samaritano (Lc. 10, 25-37). As necessidades de auto-realização estão traduzidas na conduta esplancnofânica de um Samaritano, perante um pedido de ajuda de um Desvalido no Caminho. A realização pessoal do Samaritano concretizou-se na «necessidade esplancnofânica» Esta necessidade veio de fora para dentro e de baixo para cima, sendo, pois, impulsionada por um Desvalido (Jesus Cristo).

Na base da pirâmide situam-se as necessidades orgânicas de alimento, água, oxigênio, sono, actividade e satisfação sensorial, estas necessidades são básicas para a manutenção da vida (Ferreira, 2006). Na maioria das pessoas (dos países ocidentais) estas são satisfeitas; no entanto, existe no mundo um vasto grupo populacional cujas carências básicas não se encontram satisfeitas pelo que não se manifestam necessidades de nível superior. Segundo a parábola (Lc. 10, 25-30), estas competências sensoriais estariam presentes na conduta dos salteadores e no nomikos;

8. Referências Bibliográficas ^

Copyright © 2014 Maria Assunção Almeida Nogueira, Ramiro Délio Borges Meneses

Ramiro Délio Borges Meneses, Maria Assunção Almeida Nogueira. «O desvalido no caminho (Lc 10, 25-37): pela axiologia das competências». Dialegesthai. Rivista telematica di filosofia [in linea], anno 16 (2014) [inserito il 10 luglio 2014], disponibile su World Wide Web: <https://mondodomani.org/dialegesthai/>, [44 KB], ISSN 1128-5478.

Note

  1. Inteligência emocional é um construto usado por Daniel Goleman (2005) que significa gerir os sentimentos de tal modo que os consigamos exprimir de forma apropriada e eficaz, assertivamente, permitindo aos indivíduos desempenhar as suas funções sem gerar conflitos e em sintonia com os objectivos comuns. Cada pessoa possui pontos fortes e pontos menos fortes no domínio da sua inteligência emocional. <

Copyright © Dialegesthai 2014 (ISSN 1128-5478) | filosofia@mondodomani.org | Direzione e redazione